Ao Sagrado Coração de Jesus

O início do século XX tem para nós, maranhenses, grande significado, conquanto foi nele que se determinou, através da Lei Federal 1.329 de 1905, a construção da estrada de ferro São Luís-Teresina, a qual foi responsável por impulsionar nossa produção agrícola por facilitar seu escoamento. Desde 1915 já existia tráfego de trens, mas foi somente em 1919 que as estações entraram em atividade. Foi devido à intensificação das obras que o povoamento ao longo da linha férrea aumentou. Com Carema não foi diferente, conforme tivemos a oportunidade de demonstrar em O menino da ferrovia. Ali se estabeleceu José Bonifácio Muniz e sua esposa Hormígida e foi ali também que a família cresceu.

Dos oito filhos que tiveram, quatro já haviam nascido com grande dificuldade e muitas dores. Eram eles Sebastiana (Cecé), José Carlos, Theresinha de Jesus e Benedita (Bindoca). Após engravidar do quinto filho em 1938, D. Hormígida se entregou de vez à fé no Sagrado Coração de Jesus e fez a promessa de que se tivesse um parto normal e sem grandes dores, todos os anos lhe renderia homenagem mandando celebrar uma missa na capela que haveria de construir e fariam uma grande Festa. Suas preces foram atendidas. O bebê, que recebeu o nome de José de Ribamar, nasceu em 27 de julho de 1939 de um parto tranquilo, assim como todos os outros que vieram depois, José Bonifácio Filho (Zequinha Buranga), Raimunda (Dica) e Antonio José (Tote). Começava assim uma tradição que em 2017 alcança 78 (setenta e oito anos) anos. Sempre no último sábado do mês de julho o Povoado Carema, edificado às margens da Ferrovia São Luís-Teresina, no município maranhense de Santa Rita, recebe o maior evento religioso da região, o festejo em homenagem ao Sagrado Coração de Jesus.

Uma vez por ano, todos os Muniz das mais distantes localidades do Brasil e do Mundo se dirigem a Carema para honrar a promessa feita, confraternizar e se entregar à fé no Sagrado Coração. Eles se juntam aos Carvalho, aos Pires, aos Torres e a tantas outras famílias tradicionais locais e aos visitantes para assistir a missa na hoje Igreja do Sagrado Coração de Jesus, batizar as crianças, participar da procissão com crianças vestidas de anjos, aproveitar a festa e fotografar na praça edificada por Antonio José Muniz, em frente ao cruzeiro que eu mesmo conduzi até o local em que hoje se encontra, para que fosse fixado durante a noite e surpreendesse a todos no alvorecer.

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Ao longo dos anos e conquanto a idade avançava, D. Hormígida passou a se dedicar exclusivamente à parte religiosa do evento (grandes párocos celebraram a missão, como por exemplo o Monsenhor Dourado, Monsenhor Madureira, Monsenhor Hélio Maranhão, Padre Ribamar e até mesmo o Bispo D. Paulo Ponte), passando a parte festiva para Bonifácio Neto (filho de Cecé) e para José Bonifácio Filho e José de Ribamar (o mesmo que gerou a promessa), aos quais competiu por anos a contratação do parque de diversões e das atrações musicais que se apresentavam no barracão ao lado da casa em que viveu com seu marido. Com o tempo, estes passaram a realização da festa para Marco Antonio e Pingo (filhos de Ribamar), Eliézer (filho de José Bonifácio, o Zequinha Buranga) e Márcio Muniz (filho de Bonifácio Neto), hoje o responsável direto por todo o evento. No local do Barracão original ele edificou uma grande arena de show com capacidade para mais de 30 (trinta) mil pessoas. Já não temos mais apenas um dia de festa. Agora o festejo dura nove dias, com grandes atrações que movimentam a economia local, mas ainda é conservado o último sábado de julho para o ponto alto do evento.

De todas as lembranças que tenho, guardo com especial saudade a imagem da casa grande de Carema cheia de visitantes, Zé Bonifácio com seus cabelos brancos sentado  em sua cadeira que ficava na sala, conversando e abençoando a todos que chegavam e D. Hormígida com seu vestido azul de bolinhas brancas, uma toalha de prato no ombro direito, a preparar os bolos de goma que eram tão apreciados, enquanto delegava atribuições para o preparo do festejo.

Hormígida e José Bonifácio são meus avós paternos. Antonio José, o Tote, é o O menino da ferrovia , meu querido pai e tudo o quanto aqui narrado é dedicado pela família Muniz ao Sagrado Coração de Jesus.

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