VIDAS PROFANAS

São Luís, capital do Estado do Maranhão, foi edificada na Ilha de Upaon-açu. Ela é banhada pelo oceano Atlântico e está  geograficamente localizada entre as baías de São Marcos e São José de Ribamar.

Durante muitos anos, a principal via de acesso e comércio se dava através do mar e dos rios. Era por eles que chegavam os víveres que abasteciam o Estado, vindos de Paramaribo e outros grandes centros. Assim, naturalmente, o povoamento se deu do litoral para o continente. A riqueza, quem detinha, eram os comerciantes, os produtores rurais e os marinheiros dos barcos e navios que atracavam na Rampa Campos Melo e no Portinho. Não por acaso, o hoje Palácio dos Leões era um forte que guarnecia essa parte do litoral e o centro comercial se estabeleceu na praia grande, hoje Projeto Reviver no Centro Histórico, e os bares e casas de tolerância na Rua da Palma e 28 de Julho. Era por aquela área que circulava a alta sociedade local, os endinheirados e boêmios da época com seus chapéus Panamá e seus ternos bem cortados de puro linho.

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Assim como um dia a Rua Grande foi o principal centro comercial da cidade, quando ainda não existiam galerias ou shopping center, da mês forma a Rua da Palma e a 28 de Julho foram o foco da diversão antes do surgimento da cidade nova e suas boates e barzinhos modernos surgidos após a construção da Ponte José Sarney.Screenshot_20170730-204334

É nesse contexto histórico que se situa o livro Vidas Profanas, do professor, Juiz de Direito, compositor e escritor José Eulálio Figueiredo de Almeida, ou simplesmente Eulálio Figueiredo. Com sua estória tenho eu grande afinidade, conquanto meus tios por parte de mãe, os conhecidos irmãos braçadas, halterofilistas que eram, gastavam seus recursos em farras na boate da Maroca, um dos pontos de destaque da época.

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O glamour de outrora começou a desaparecer com a transferência do atracadouro da área da Praia Grande para a região do Itaqui, aonde hoje funciona o segundo porto de maior profundidade do mundo, que leva o mesmo nome, o qual só perde para o Porto de Hoterdan, na Holanda.

O livre foi transformado em peça de teatro e está encenada a partir do dia 04 de agosto, com ingressos substituídos por 2 (dois) quilos de alimento não perecível. Na estréia, eu estava lá, pelo meu professor e posterior colega de TRE Eulálio Figueiredo, mas também pelos meus tios. No dia 04 de agosto, dia da estréia, um deles fazia 1 (um) ano de falecimento. Era o mínimo que eu poderia fazer pela sua memória.

A narrativa da peça me conduziu a um ambiente que eu só conhecia pela narrativa de meus tios. Não frequentei o local, mas sabia que era no hoje centro histórico que tudo acontecia. Ainda em 1981, 1982, quando as casas de tolerância já não tinham mais o mesmo glamour e eu tinha apenas 11 para 12 anos, lembro que um dos mordomos do Palácio dos Leões era useiro e vezeiro do antigo Porta Larga, prostíbulo que funcionava ao lado do mercado das tulhas no hoje projeto reviver. 

Tudo acabou. O comércio se deslocou para outras áreas, o porto foi para o Itaqui, os bares e cabarés se mudaram para a cidade nova e no centro histórico só ficou a história de um tempo de riqueza que nunca vai voltar. As boates de luxo da Rua da Palma e da 28 de julho já não existem mais. Pequenos inferninhos teimam em resistir e até o xirizal do Oscar Frota hoje vive a decrepitude dos novos tempos. O que se tem agora de chique e social em matéria de cabaré é a boate Zero hum, a Rosana Drinks e a Cristal, além de uma ou outra que em dado momento ganha algum destaque.

Alguns anos atrás, auxiliando um determinado candidato a Deputado Estadual, tive oportunidade de participar de uma reunião no Centro Histórico. De lá saiu a necessidade de criar duas associações: uma dos profissionais liberais do centro histórico e a outra a Associação das profissionais do sexo do Maranhão. Atendendo a um pedido do meu candidato, eu ajudei a fundar.

No dia 04 de agosto de 2017 eu me encontrei com o passado de São Luís, dos meus tios e até com o meu, ainda que relativamente recente. Tudo por conta do livro e da peça de Eulálio Figueiredo. As vidas profanas renasceram, de uma forma ou de outra, nas minhas recordações.

 

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2 comentários sobre “VIDAS PROFANAS

  1. Grande Sérgio, só você para complementar com tanta propriedade esse resgate boêmio histórico da nossa São Luís de ontem e de hoje, retratado tão minuciosamente no livro pelo Prof. Eulálio…Parabéns!!!

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