Homenagem

Tia Dirce, Oscar e o silêncio

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É estranho, para mim, iniciar um texto pelo final do título. Contudo, não vejo como ser de outra forma.

Silêncio.

Para alguns, um dia qualquer. Para muitos, um inesquecível momento de se despedir de quem vai fazer muita falta. Em universos distintos e certamente desproporcionais, o Brasil e o Maranhão perderam hoje duas pessoas de significativo valor: retornaram para os braços do Pai, a nível de Maranhão, Dirce Fecury Zenni. A nível de Brasil, Oscar Schmidt. De comum entre ambos, um pequeno elo chamado Ricardo Zenni.

Eu era menino quando aceitei um inesperado convite do falecido Professor de basquete do Colégio Dom Bosco, o inesquecível César, para treinar aquele esporte que, na minha vida, representava apenas uma distração até o início das aulas de matemática do Professor Nascimento Morais, ministradas no começo da noite na casa do meu amigo Fábio Nahuz, onde hoje fica a sede da Unimed no Canto da Fabril. Talvez por ser um pouco maior que a maioria dos meninos da época, ele achou que eu teria possibilidade de me destacar (ledo engano: no ano seguinte passei a me dedicar ao esporte da minha vida que foi o futebol de salão). Na época, eu e miudinho formamos uma razoável dupla de pivôs, pelo menos para nossa realidade infantil. Nossa esperança de ir bem no esporte durou até batermos de frente, nos jogos infantis maranhenses, com o time do Colégio Batista que tinha Alan Neto e Arnaldo bicudo na armação e Cosme (já falecido) de Pivô. Eu e miudinho pulávamos e não conseguíamos chegar no antebraço dele. Hehehe. O cara era enorme para nossa realidade.

Para quem não sabe, miudinho era e é meu amigo/irmão Clóvis Fecury, filho de uma lenda do nosso desporto amador justamente naquela modalidade, o ex-Prefeito de São Luís; Idealizador e fundador da Universidade CEUMA, Mauro de Alencar Fecury. Nos finais de semana, costumávamos ir para a casa de Clóvis no bairro do Olho D’água, para brincar e jogar basquete, momentos nos quais tínhamos a oportunidade de ver Dr. Mauro e Ricardo Zenni jogarem. Como diria Bruno Henrique do Flamengo: otopatamar. Ficávamos nós, eu, Clóvis, Fábio Beiço, Paulinho, Catatau, eventualmente Maurício Itapary, Josmar e mais alguns outros admirando e aprendendo como praticar aquele esporte com um mínimo de qualidade.

Ricardo Zenni, além de nos massacrar juntamente com Dr. Mauro, ainda desfilava seus jumps (jump shot é um fundamento do basquete em que o atleta arremessa a bola no ponto mais alto do seu salto de ataque) depois das partidas. O cara não errava um arremesso, principalmente de três pontos. Foi nessa época que soube que ele teria jogado com o grande Oscar da seleção brasileira de basquete. Ricardo Zenni é filho de Tia Dirce, irmã de Dr. Mauro. Ela é, portanto, tia de Clóvis.

Tia Dirce foi uma figura exponencial. Dona de uma alegria infinita e um cativante sorriso. Se fazia presente todos os dias em sua lanchonete no Ceuma, normalmente acompanhada por sua filha Virna, onde com todo carinho e atenção, recebia os alunos ávidos por saciar sua fome com os quitutes deliciosos que ela disponibilizava. Sempre foi muito querida por todos. Para nós, que pudemos estar com ela fora do ambiente de trabalho, era Tia Dirce, irmã de tio Miguel e de Dr. Mauro. Uma doce pessoa de sorriso largo e olhar acolhedor. Um exemplo de mãe e mulher empreendedora.

Quanto a Oscar, este não necessitava de apresentação por onde quer que andasse. Ele fazia parte da geração mais vencedora do nosso basquete dos anos 80 aos anos 2000. Em que pese eu achasse que Marcel tinha mais plasticidade no arremesso (Oscar era mais desengonçado), ambos formaram com Marquinhos, Gerson, Pipoca, Guerrinha e Carioquinha, dentre outros, a mais vitoriosa geração de jogadores de basquete brasileiros que vi jogar. Graças a Ricardo Zenni e Dr. Mauro, eu não perdia um jogo e torcia muito pela nossa seleção. Se não ganhamos olimpíadas e Oscar sempre se ressentiu de ter errado o último arremesso no jogo contra a União Soviética (teríamos vencido o jogo e o Brasil poderia ter sido o campeão olímpico, vez que essa honra coube aos soviéticos), ganhamos o jogo mais emblemático do século XX, quando o Brasil venceu os EUA no pan-americano de Indianápolis, dentro, portanto, dos Estados Unidos, naquela que foi a primeira derrota deles em finais. Lembro como se fosse hoje da narração de Luciano do Vale, de Marcel sambando meio sem jeito após mais um ponto e de Oscar chorrando no final da partida. Inesquecível.

Oscar foi o maior jogador de basquete do Brasil. É o maior pontuador profissional com mais de 49 mil pontos e o maior pontuador em olimpíadas com mais de mil pontos, tendo disputado cinco olimpíadas. Integra o hall da fama do basquete sem nunca ter jogado na NBA, em que pese tenha sido drafitado (escolhido). Optou por não se profissionalizar lá vez que isso o impossibilitaria de jogar pela seleção brasileira. Foi um patriota que nunca se arrependeu da escolha que fez. Para mim, fã incondicional, ele está no mesmo patamar, no Brasil e para o mundo, de Pelé, no futebol, Airton Senna no automobilismo, Guga no Tênis e César Cielo na Natação, apenas para citar desportista homens.

Oscar lutou contra um câncer de cérebro desde 2011 e venceu. Ele morreu de uma parada cardiorespiratória após se sentir mal. Deixa um legado de dedicação ao treinamento insuperável. Dizia que teve quem jogasse mais que ele, mas não que treinasse mais.

Para mim, hoje foi um dia de silêncio e dor. Silenciei quando soube da partida deles. Doeu saber que perdemos um ícone do esporte e uma pessoa espetacular como tia Dirce. O elo, Ricardo, sofreu duas vezes.

A família Ceuma diz adeus. Nós, pobres mortais, até breve.

À família Fecury Zenni, recebam meus sentimentos e um fraternal abraço neste momento de dor. Força e fé.

Aos brasileiros, digo que tivemos a sorte de ter, entre nós, um potiguar que levou o basquete do Brasil para o mundo e que está, para sempre, imortalizado no Hall da fama do basquete mundial.

Que haja um minuto de silêncio, seguido por um caloroso aplauso, em homenagem àqueles que partiram deixando uma marca indelével de suas realizações.

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