A Despedida, a lágrima e a política

Confesso que mesmo sabendo que seria inevitável não me preparei espiritualmente para o dia de hoje. Já havia vivido algo próximo a isso anos atrás quando vi e o ouvi o Presidente Sarney comunicar à nação que não voltaria mais ao Senado. Contudo, tal qual ocorrera anos atrás, fui pego de surpresa com o anúncio feito diretamente da tribuna durante a sessão de número 158. Hoje não foi diferente. Me recuperando de uma virose chata que me acompanha a quase uma semana, por acaso sintonizei na TV Senado exatamente no momento em que o Senador Edison Lobão se despedia desta legislatura e do mandato que em breve se encerra. Logo logo será a vez do Senador João Alberto. Que falta farão todos vocês!

Talvez muitos que lerão este texto não saibam que Sarney, Lobão e João Alberto foram e são alguns dos mais honrados e respeitados Senadores da história da República e não por acaso partícipes de alguns dos mais importantes momentos políticos do nosso País. Nesta última legislatura, Lobão e João Alberto estiveram no centro das mais importantes discussões do Brasil, o primeiro por estar pela segunda vez presidindo a Comissão de Constituição e Justiça do Senado e o segundo como Vice-Presidente do Senado e Presidente da Comissão de Ética daquela Casa.

O ano de 1987 marca a chegada de Lobão ao Senado. Antes mesmo de ali chegar já dava importantes contribuições ao País, sendo responsável, por exemplo, pelo retorno do pagamento dos subsídios dos vereadores. Aquele foi o primeiro dos 32 (trinta e dois) anos em que lá esteve honrando e dignificando o Maranhão. Foi ali líder, Presidente e integrante de várias Comissões Técnicas, Presidente do Senado Federal. De lá saiu em três oportunidades. Uma para governar o Maranhão e duas para exercer a função de Ministro das Minas e Energia. No breve discurso que pronunciou hoje da tribuna do Senado deixou sintetizados os 4 (quatro) mandatos que cumpriu e um resumo de sua grandiosa dedicação ao Maranhão e ao Brasil. Não teria eu como deixar de registrar esse momento. Busquei em vídeo e registro aqui para posteridade esse resumo da contribuição de um valoroso maranhense para o Brasil. Assistam com paciência. Testemunharão a marca indelével da competência e do comprometimento em favor da causa do desenvolvimento e da probidade.

Durante essa verdadeira prestação de contas ao Maranhão e ao Brasil, pude observar em um flash de imagem vindo da galeria a presença em lágrimas de alguns de seus assessores, destacando-se a figura do competente Ewandro, por anos a fio seu Chefe de Gabinete no número 54 do anexo 2 da Ala Tancredo Neves do Senado. Tenho certeza de que as gotas ali derramadas eram de invulgar orgulho pela figura altruísta que se despedia. Nas realizações registradas por ele está também a marca da dedicação de toda uma equipe.

Com Lobão tivemos o Pré-sal; afastamos o pesadelo do apagão; desenvolvemos a energia eólica com vários leilões para sua exploração; construímos várias hidrelétricas como Estreito e Girau; tivemos o luz para todos com quinze milhões de domicílios beneficiados com energia elétrica, somente para citar alguns avanços no setor energético.

No Senado, por ele passaram questões e leis de importância ímpar para a Nação, Devemos a Lobão a possibilidade de votar para Governador. Se temos Ministério Público livre e atuante também devemos a ele, dentre tantas outras participações legislativas tão bem destacadas em seu pronunciamento aqui disponibilizado. Sempre digo que são raras as pessoas que podem repetir a frase do general Romano: vim, vi, venci. O Senhor travou o bom combate e para felicidade dos brasileiros foi vitorioso.

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Agora que as cortinas  do mandato que finda se fecham, congratulo-me juntamente com o Senador Cassio Cunha Lima em saber que não deixará a política. Parabenizo-lhe por seu legado como fez em aparte a Senadora Ana Amélia e o Senador Hélio José e finalizo registrando o meu mais profundo respeito e admiração, não sem antes agradecer por tudo que o senhor fez até hoje, pelo Maranhão e pelo Brasil.

Muito obrigado por tudo. Mesmo neste momento de despedida, entre lágrimas se soube que o Senhor permanecerá na política dando sua contribuição para o crescimento do Maranhão e do nosso País. Ganhamos todos nós.

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Eu só queria dizer, ainda uma vez, adeus.

Uma das maiores riquezas do ser humano, sem dúvida, é o poder de guardar na memória imagens bonitas e pessoas de sua bem querência. Quando tudo isso se junta temos a recordação perfeita, a lembrança inesquecível. Como são marcantes aquelas que decorrem de belas passagens da sua infância. São registros que o tempo não apaga. Neste dia 14/06 aconteceu comigo.

Eu não tinha mais que onze anos quando meus pais nos levaram para conhecer o Rio de Janeiro. Fomos de VASP, uma das grandes companhias aéreas da época. Para que vocês possam se situar no tempo, o ano era 1981. Lembro como se fosse hoje a emoção de entrar naquele avião que parecia aos meus olhos inexperientes ser enorme. Em minha frente estão as belas comissárias de bordo vestidas de um azul belíssimo. Os passageiros super alinhados (meu pai viajava de terno e gravata como quase todos os homens que estavam a bordo), pareciam estar em um restaurante – uns fumavam e outros bebiam whisky, vinhos e cervejas -. No almoço foi servido um cardápio variado (eu comi carne) em umas caixinhas brancas com talheres que tinham no cabo grafado o nome VASP. Uma maravilha.

Não era apenas uma viagem de férias. Meus pais estavam nos levando para conhecer o incrível Rio de Janeiro, mas também para visitar parentes que moravam lá e com os quais eu e meus irmãos nunca tínhamos tido nenhum contato.

Desembarcamos no Galeão, hoje aeroporto Antonio Carlos Jobim, ao som da voz inigualável de Íris Lettieri (eram dela as orientações aos passageiros sobre os vôos e o portão de embarque) e nos deslocamos na Ilha do Governador até próximo da sede da Portuguesa carioca (hoje o ninho do urubu, Centro de Treinamento e campo do Flamengo) aonde ficava o apartamento dos meus tios Ubirajara e Nair, ela irmã mais velha de minha mãe Níusmar. Chegamos pro final da tarde. Netinho, filho deles, já não morava mais lá. Foi uma alegria só. O Bira foi nos mostrar o apartamento, seu magnífico equipamento de som que ficava em uma estante na sala, sua pequena oficina (ele fazia de tudo ali dentro) e o local onde dormiríamos. Lembro de minha tia dizendo pra mamãe nos botar para escovar os dentes e urinar para que não o fizéssemos no colchão. Nunca esqueci disso. Hehehe.

Acordei cedo e fui para a janela. Estava frio e tinha uma pequena neblina. Com alguma dificuldade pude ver que próximo dali tinha uma kombi aberta com um toldo na lateral aonde pessoas em fila compravam o pão e outras coisas para o café. Mais tarde, naquele mesmo local, crianças passaram a brincar com uma bolinha que era rebatida por um taco para derrubar três madeiras apoiadas uma nas outras (nunca soube nem jogar nem o nome desse jogo) e outras empinavam pipa, o que pra mim era estranho pois aqui usávamos papagaio. Enfim, o Rio tinha vida na minha faixa etária.

Lembro de termos levado quase duas horas no fusquinha do tio Bira para ir da Ilha do Governador até Jacarepaguá aonde fomos visitar meu tio Neomar, irmão de mamãe. Ele morava em Vila Valqueire com sua mulher Ligia e meus primos Neomar Junior, Jaqueline e Ritinha, a caçula. Foi uma farra. Jr tentou nos ensinar a tocar corneta que ele aprendera na escola (não emitimos uma única nota correta, mas ele ja demonstrava que aquele era o início de sua carreira musical). Brincamos muito com as meninas e tiramos onda do seu sotaque carregado.

Naquela viagem conhecemos ainda a Tia Inah de mamãe (ela e seu marido nos ensinaram a jogar buraco); Tio Donato (irmão do meu avô por parte de pai) e sua filha, Tia Lizete (um anjo de luz na terra) e sua família com quem depois passaríamos um agradável final de semana em Arraial do Cabo.

De todos esses parentes que citei pelo nome e que vivim no Rio, apenas Netinho, a tia Ligia, Neomar Junior, Jaqueline e Rita estão com vida. Os demais guardo vivos em minha memória, juntamente com os deliciosos momentos que passamos juntos naquela viagem inesquecível.

Meu tio Ubirajara faleceu ano passado e logo depois eu voltei ao Rio de Janeiro. Fui visitar minha tia Nair. Comigo estavam minha família e minha prima Jaqueline. Já não voltamos mais ao apartamento da minha infância. Fomos para uma casa para onde eles haviam se mudado. Aquela moradia foi o sonho de uma vida realizado. Ali também o Bira tinha seu estúdio (ele foi precursor das gravações de eventos em vídeo na Ilha do Governador), mas desta vez quem filmou tudo foi eu. Filmei minha tia já debilitada pela idade  avançada e pelas doenças que a estavam acometendo e encaminhei a filmagem para minha mãe via whatsapp para aplacar-lhe um pouco a saudade. Foram suas últimas imagens com vida.

Um ano depois de ter estado lá com ela, realizando meu sonho de reencontro com meu passado, juntamente com minha família, ela descansou e foi ao encontro do seu grande amor.

Eu só queria mais uma vez ter podido dizer obrigado. Eu só queria ter podido dizer, ainda uma vez, adeus.

Descanse em paz minha tia Nair.