Os argentinos vão entrar é na taca

Uma das grandes características do torcedor do Flamengo é o pensamento positivo. Para nós não existe meio termo. Jogamos sempre pra vencer e temos a certeza de que se deixar o Mengão chegar na final o caneco é nosso. Nosso destino é a vitória e a derrota, nas poucas vezes que ocorre, é mero acaso, infortúnio momentâneo decorrente de uma falha pontual.

No dia de hoje, a nação rubro-negra está em festa. Afinal, tivemos uma vitória convincente, fora de casa, sobre uma grande equipe. Contudo, nossa superioridade foi inquestionável. De tudo, convém destacar uma atuação impecável do goleiro César, um gigante em campo após dois anos de inatividade; uma zaga improvisada por Juan e Rodolpho, que jogou como se fosse a titular a muitos anos e Felipe Vizeu, o qual mostrou ter o faro para o gol. Tínhamos muitos desfalques, mas acima de tudo a raça rubro-negra prevaleceu.

Ontem tivemos o Grêmio conquistando pela terceira vez a libertadores da América. O Brasil vai ao mundial vestido de azul e branco para mostrar aos pseudo favoritos do Real Madrid que a Espanha entende é de paella. De futebol entendemos nós. Vamos botar limão e pimenta nesse prato e vamos comer os merengues com um bom vinho gaúcho. Como somos gulosos, nesse festim da gula prevalecerá nosso bom e gostoso churrasco campeiro. Bah, tchê, vamos botar esses peados na roda e impor a Vitória. Afinal, temos que comemorar com churrasco, vinho e chimarrão.

Por aqui, não tenho dúvida. Após a final que ocorrerá no Maracanã, bradaremos que os argentinos entraram foi na taca outra vez e comemoraremos com feijoada carioca e muito chopp. Afinal, Flamengo é Rio. Rio é Brasil e somos futebol. Aqui argentino não canta de galo e se cantar vira canja.

Não adiantou secar, contrários. Chupa essa manga e acostuma com a idéia. Temos conversor de energia negativa em positiva. Joguem fora os memis que passaram o dia preparando e colecionando. Hoje vocês vão dormir com o couro tão quente quanto a vítima de hoje.

Que venha a final. O Brasil se vestirá de preto e vermelho outra vez e gritaremos juntos, uma vez mais, que o Flamengo é campeão.

Hahaha, hihihi, eu não consigo parar de rir.

Boa noite.

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Talento a flor da pele

Eu acredito piamente que antes mesmo de aprender a andar ou a falar eu já escutava seu nome e as referências elogiosas a seu respeito. Sua fama o precedia naquele que foi seu momento de brilho mais intenso. Num tempo em que a comunicação não tinha nem de longe a facilidade de hoje, quando não existia internet e nem redes sociais, quando os meios de comunicação eram as cartas, os recados, jornal, revista, o telefone fixo, o rádio, a televisão e o rádio amador, ele se impôs pelo talento nunca visto e que dificilmente se verá. Ele encheu o mundo de beleza e inspirou gerações.

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Por incontáveis vezes eu busquei saber sobre ele. Li e assisti tudo o quanto me chegou às mãos. Sabia detalhes de como viveu e vivia. Suas angústias e seus amores. Seu trabalho depois que deixou a atribuição que lhe consagrou. Seu lazer e sua paixão pela música. Seus filmes e suas canções.

Alguém, certo dia, disse ser ele de outro planeta, ou, se fosse deste, não seria outra coisa senão uma força da natureza, algo sem explicação. Sua força incomum, explosão física inalcançável, inteligência ímpar e deslocamento sem igual talvez pudesse explicar seu sucesso, mas nunca sua existência.

Filho de família pobre, aprendeu desde cedo a importância de se dedicar, com todas as forças, ao que fazia. Nunca mediu esforços para chegar ao ápice e o máximo que se permitiu de descanso foi um breve repouso antes do início do trabalho. Talvez por isso, certos de que revigoradas as forças para mais um momento espetacular, ninguém ousava perturbar-lhe a paz. Afinal, o momento seguinte seria de glória extrema.

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Em que pese fosse sempre o centro das atenções em uma constelação de estrelas, nunca foi egocêntrico e nem tampouco individualista. Nem mesmo no momento singular que viveu e que foi aguardado ansiosamente por todo o mundo, deixou de pensar no próximo. Lançou seu olhos para o futuro e talvez por nem nesse momento pensar em si foi criticado pelos idiotas de plantão.

Depois de ter estado triste o dia inteiro, em virtude de uma série de adversidades e alguns insucessos que espero sejam momentâneos, tive a grata satisfação de receber no aplicativo Whatsapp uma pequena parte do seu legado. Só então voltei a sorrir.

Fiquei sozinho, pensando, como é fantástica a obra de Deus. Ele fez de um menino comum, brasileiro, um ser único no mundo. Ele foi um escolhido. Um ser de luz. Um predestinado a demonstrar que é possível fazer o que para muitos é verdadeiramente impossível.

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Num mundo de competição extrema, em que tantos já brilharam com intensidade real, nem Garrincha, nem Didi, nem Zito, nem Canhoteiro, nem Puscas, nem Di Stefano, nem Evaristo, nem Platini, nem Zico, nem Maradona, nem Rivelino, nem Gerson, nem Tostão, nem Rivaldo, nem Romário, nem Kaká, nem Cristiano Ronaldo, nem Ronaldinho, nem Ronaldo Fenômeno, nem Neymar, nem Messi, nem ninguém.

Simplesmente nunca existiu nem existirá alguém tão bom quanto Pelé. Sinônimo de excelência no que fez, ele foi inspiração, talento a flor da pele, da pele negra de Pelé. 

Simplesmente antológico

Eu bem que tento não escrever sobre certos assuntos para não parecer repetitivo, contudo fica difícil não revisitar o tema Futebol quando se tem a suprema alegria de ser flamenguista. Tudo ganha uma dimensão colossal quando o jogo é importante e o adversário é um dos grandes do Rio de Janeiro e a razão é simples: fluminense, Vasco e a vítima de ontem, o botafogo  (todos com letra minúscula mesmo) se unem para torcer contra. Hehehe. Não adiantou secar. Eles entraram foi na taca. Hehehe.

Algo me dizia, desde cedo, que alguma coisa de especial aconteceria, tanto que já pela manhã vesti o manto que normalmente visto apenas no início das partidas. Uma atmosfera diferente se impunha e era importante não perder um só segundo. Afinal, não é todo dia que se pode vencer a energia unificada dos três. Dominamos toda a partida e Coube ao Diego efetivar esse sentimento de vitória que estava no ar.

Em um lance simplesmente antológico, o jogador Berrio deu um traço, um drible de cinema no defensor do botafogo (aqui no Maranhão chamamos de rabo de arraia, mas de letra eu nunca tinha visto, hehehe) e tocou para a finalização precisa do craque Diego.

 

A plasticidade do lance foi digna de fazê-lo figurar na lista dos mais bonitos do ano. O conjunto da obra favorece. Além da alegria desse gol magistral, não tem dinheiro que pague a satisfação de chegar em mais uma final e de tirar onda com os tríplices derrotados. Eu que já estava feliz por ter a Mega-Sena acumulado  (eu não tive como fazer a minha tradicional fezinha), fechei a noite em grande estilo. Hehehe.

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Neste momento em que estou no Centro Médico aguardando para um exame, não tive como deixar de relembrar esses momentos felizes e de compartilhar com vocês.

Sim, hahaha, hihihi, eu não consigo parar de rir.

Não basta ser pai

Essa última semana foi especial para mim. Em que pese a virose que peguei, já na quinta-feira estava bem melhor, o que me permitiu acompanhar a participação da minha filha em uma prova do seu esporte preferido para a qual, registre-se, ela tinha treinado em regime concentrado por uma semana. O legal é que pude estar lá, ao lado dela, dando o apoio de que precisava para competir bem.

Também nessa última semana levei Sérgio Filho para uma primeira experiência no Futsal em uma escolinha (mesmo adoentado, estava eu tentando lhe passar alguns pequenos fundamentos para o treino que se avizinhava). Conversei com o técnico, expliquei que ele estaria começando praticamente do zero e que precisaríamos de um período de avaliação para definir os rumos a adotar. Contei com sua compreensão. Ele treinou timidamente e retornou na quarta mais desenvolto. No sábado, participou da Clínica ministrada pelo Prof. Coqueiro, a qual destaquei em Uma parceria de sucesso . Como já estava bem melhor, participei da Clínica como goleiro para completar o time e joguei contra ele. Foi uma experiência enriquecedora. Sua participação foi muito boa e mereceu elogios do treinador, mas o final me reservou uma surpresa.

Eu sai da quadra cansado, mas feliz. Eu tinha participado ativamente de um momento importante para ele e estava realizado como pai quando ele me disse, muito chateado, que o treino não tinha sido bom porque ele não tinha feito um gol em mim. Fiquei decepcionado comigo inicialmente por achar que tinha errado, por não ter facilitado para ele, mas logo depois, recuperado do susto, vi que eu estava certo. A maior lição que eu poderia ter dado a ele foi justamente que para vencer tem que lutar, trabalhar com afinco para superar a dificuldade e que se pra ele não foi possível me marcar um gol naquele momento um dia conseguiria fazer muitos, bastava treinar.

Hoje eu fui levá-lo ao treino outra vez. Encerrei uma reunião que já se alongava pelo farto material recebido para análise e corri para buscá-lo no Colégio. Ele novamente treinou bem e fez seu primeiro gol. E eu estava lá. Não sei qual dos dois estava mais feliz. Foi inevitável não lembrar da propaganda da gelol de 1984.

 

Uma criança acorda o pai para levá-lo ao jogo de futebol. Ele não é escalado pelo dono do time e é o penúltimo a entrar no jogo. Quando entra, faz uma grande jogada e sofre um pênalti. O pai corre em seu socorro com a pomada de gelol. Como na regra das peladas quem sofre o pênalti é quem bate, ele corre pra bola e faz o gol. Em seguida comemora com seu pai. O comercial encerra com a frase: “nao basta ser pai, tem que participar. Não basta ser remédio, tem que ser gelol”.

No final do treino de hoje ele veio ao meu encontro para comemorar comigo o seu gol. Na foto que ilustra este ensaio estão minha filha e ele, felizes, por sua conquista pessoal. No fundo, um emocionado e orgulhoso pai registrando o momento. Realmente não basta ser pai, tem que participar. Estou muito feliz por estar participando.

35 anos depois e eu ainda choro

Eu tinha apenas 12 anos quando tudo aconteceu. Lembro de uma atmosfera diferente de 1978. já não teríamos mais Rivelino e nem Nelinho e Leão já não seria o nosso goleiro. Contudo, ninguém tinha dúvida de que teríamos uma chance enorme de ganhar a copa da Espanha, já que tínhamos certeza de que a copa da Argentina tinha sido tomada de nós pela força do regime militar daquele País. O que nós dava a certeza? tínhamos um esquadrão inigualável, capitaneado por um treinador que jogava pra frente.

Telê Santana conseguiu aquilo que muitos julgavam improvável. Montou uma equipe de craques que privilegiava a posse de bola e os deslocamentos constantes com passes curtos. A vocação para o ataque deslumbrou o mundo e não existia um único amante do futebol que não acreditasse que chegara a hora do tetra. Estávamos preparados e dando show. O time formado por Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior, Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Serginho Chulapa e Éder Aleixo tinha tudo para dar certo.

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Waldir era o titular do gol do São Paulo (tinha na boa colocação e elasticidade seus pontos fortes, além de ser um exímio pegador de penaltis); Leandro era o melhor lateral direito que o futebol produziu; Oscar do São Paulo e Luizinho do Atlético formavam uma zaga sólida e na lateral esquerda estava o maestro Junior; Toninho Cerezo era uma cabeça de área que desarmava, mas que também sabia sair jogando e tinha ao seu lado Paulo Roberto Falcão, o Rei de Roma, que com classe distribuia o jogo e levava a equipe ao ataque; na meia direita tínhamos a eficiência e a genialidade do Dr. Sócrates e na meia esquerda estava ninguém menos que o inigualável galinho de Quintino, o maior ídolo da história do Flamengo. Zico era a inspiração para todos de como tratar a bola com carinho; No ataque tínhamos o goleador Serginho Chulapa, centro-avante rompedor e na ponta esquerda o eficiente Éder. Não tinha como dar errado. Foi uma sequência poucas vezes vistas de extraordinária demonstração de como jogar um bom futebol.

No primeiro jogo vencemos por 2 x 1 (gol de Sócrates e Éder) a União Soviética que tinha o maior goleiro do mundo, ninguém menos que Dasaev, o qual inspirou e muito um certo jovem de 12 (doze) anos que pretendia ser Jogador de Futebol. Lembro que nas peladas no bairro do Ipase, ao defender a bola eu gritava, imitando o narrador Luciano do Vale: defendeuuuu Dasaev.

No segundo jogo vencemos a Escócia por 4 x 1. Foi um passeio, com gol de Zico, Oscar, Éder e Falcão.

No terceiro jogo da primeira fase demos outro espetáculo, vencendo a Nova Zelândia por 4 x 0 com dois gol de Zico, um de Falcão e outro de Serginho. Classificamos para a segunda fase em primeiro lugar, seguidos pela União Soviética.

Na primeira partida da segunda fase vencemos nossos vizinhos argentinos por 3 x 1 com gol de Zico, Serginho e júnior. A seleção argentina tinha como base a seleção campeã de 1978, contando com Filiol, Olguin, Galvan, Passarella e Tarantini, tendo ainda craques como Ardiles, Bertoni e Kempes, além do magistral Diego Maradona. Entraram na taca.

No dia 05 de julho de 1982 entramos para aquele jogo que ficaria conhecido como o desastre do Sarriá (estádio aonde ocorreu a final da Copa). Disputaríamos a final contra a Itália do grande Dino Zoff e do goleador Paolo Rossi, que sequer iria disputar a Copa por ter estado suspenso em decorrência de envolvimento com a máfia das loterias. Antes tivesse ficado de fora. Fez os três gols que sofremos na derrota por 3 x 2 (para nós marcaram Sócrates e Falcão. Jogávamos pelo empate e infelizmente não conseguimos mantê-lo quando empatamos o jogo aos 68 minutos. Aos 74 minutos, a Itália trabalhou a bola e Paolo Rossi marcou o gol da vitória.

Chorei muito e choro até hoje quando lembro do jogo ou vejo a reprise dos jogos. Recentemente Pepe Guardiola (um dos maiores treinadores de futebol do mundo),  ao ser perguntado por um jornalista brasileiro sobre a dinâmica de jogo de suas equipes, afirmou que os brasileiros ensinaram isso ao mundo com a Seleção de 1982. O futebol mundial nunca mais foi o mesmo a partir do Sarriá. Privilegiou-se por um tempo o futebol força em detrimento do futebol arte que fora derrotado. Contudo, até hoje, a Seleção brasileira de 1982 é reconhecida como a melhor de todos os tempos, melhor até que a Seleção de 1970 que contava com a genialidade de Pelé, Tostão, Rivelino e Gerson.

Quanto a mim, demorei 15 (quinze) dias para consegui terminar esse texto. Lembro que do meio das lágrimas que derramava naquele fatídico dia, vi a figura do meu pai levantando da sala e se dirigindo para o seu quarto também chorando. Foi a última vez que ele, um aficcionado torcedor, assistiu com a família um jogo de futebol.