Homenagem
De Fernando Braga para Dr. Muniz, Reminiscências
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5 anos agoon
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Sérgio Muniz
Nos últimos meses, poucas coisas me tocaram tão fundo quanto a gentileza do meu amigo, advogado Guto Guterres, em me enviar o texto que reproduzo abaixo de autoria do laureado escritor maranhense e imortal da Academia Maranhense de Letras Fernando Braga. Nele, entre recordações, referências históricas e acredito eu, prospecções próprias da genialidade do escritor, referencia personagens de sua convivência ao longo dos anos, dentre os quais meu amado pai Antonio José Muniz.
Confesso que já me tinha por orgulhoso em ter tido a oportunidade de acompanhar de perto sua trajetória, esta já retratada aqui em “o menino da ferrovia ” e “Ao sagrado coração de Jesus “, dentre outros. Muito mais ainda por ter tido também a oportunidade de me decantar com “Éramos Felizes e não Sabíamos ” do imortal Bernardo Coelho de Almeida, tio de minha amiga/irmã Mônica Marletti Almeida, em que o autor lhe atribui o epíteto de “maior técnico em administração ” que ele teve o prazer de conhecer. O que para muitos já seria o bastante, até impensável, me veio hoje como um arrebatamento supremo, considerando a espontaneidade do registro e o momento delicado por que passa um dos destinatários da homenagem.
Para quem ainda não sabe, meu pai luta, há dois meses completos em 09/10/2021, contra uma infecção surgida cerca de seis meses atrás em decorrência de uma perfuração em seu intestino causada por uma espinha de peixe. Internado a dois meses em uma UTI do hospital UDI, ele trabalha contra uma infecção no músculo Psoas e contra uma espondilodiscite, um outro processo infeccioso que se estabeleceu em sua coluna em decorrência de uma fratura na altura das vértebras l2 e l3. Debilitado, mas lúcido, tenho certeza que será tomado pela emoção tanto quanto eu fui, talvez até mais, pelo reconhecimento da trajetória, do trabalho empreendido pelo nosso Estado e pelo legado que incontáveis puderam usufruir.
Fui testemunha ocular e auditiva do embrionamento e execução de um planejamento de transformação do nosso Estado, tornado real que foi à contemplação dos avanços obtidos, negados às escancaras pelos órgãos de comunicação negacionistas alimentados pela ambição de ocupação de espaços. Somente quem viveu o início da década de sessenta pode testemunhar, sem amores, como era o nosso Estado e em que se tornou. Hoje vivemos sob o jugo do encobertamento da história e da afirmação do erro para justificar um governo comunista que muito prometeu e pouco fez, fruto de uma obsessão pela ascensão nacional através do Twitter em detrimento do trabalho positivo em favor de quem o elegeu. Milhões gastos em comunicação. Que saudade dos grandes governadores de outrora que tinham trabalho e obras estruturantes para mostrar.
A você, Fernando Braga, agradeço pela gentileza do registro e por trazer ao conhecimento do nosso Estado e do nosso País, a figura ímpar de Antonio José Muniz, um maranhense de Carema, Santa Rita, Maranhão, que estudou em Rosário no Colégio Monsenhor Dourado, no Liceu Maranhense, na Universidade Federal do Maranhão, todas escolas públicas, e que, pela força de sua dedicação aos estudos, ajudou a fazer do Maranhão o Estado de oportunidades que é hoje. Feliz de quem pode deixar um legado para a posteridade. As lágrimas de hoje são o reflexo da emoção e do agradecimento pelo seu texto. Em nome de nossa família lhe agradeço penhoradamente.
“Conversas Vadias
Lembranças que já vão longe…*
Estes lances aqui narrados, não aconteciam apenas em frescas madrugadas, mas no dia-a-dia de São Luís, cidade que “nunca será vencida, nem nos combates por armas, nem na nobreza por atos”, como nos versos de Gonçalves Dias, o nosso poeta maior; onde a aurora é saudada pelos tambores de Mina e de Crioula; e onde se “servem ótimos crepúsculos”, segundo o gosto poético e boêmio do poeta Lago Burnet.
Aquele que ali passa a dirigir seu carro, é de fato e de direito um cidadão fidalgo, é o Dr. Joaquim Sales de Oliveira Itapary Filho, a pitar seu cachimbo, e a soltar bem na curva do Centro Caixeiral com a Rua de Nazaré e Odylo, um rolo de fumaça que vai deixando na algaravia poética do bar e restaurante ‘Aliança’, um cheiro inglês de fumo achocolatado, sem imaginar que um dia viria a escrever ‘Hitler no Maranhão ou o Monstro de Guimarães’, um dos grandes livros da ficção brasileira e ‘Armário de palavras’, uma coletânea de crônicas, ricas pelo conteúdo, pelos temas e pela elegância do estilo.
No Bar e restaurante ‘Aliança’, a figura sempiterna e querida do seu proprietário, o lusitano António Tavares, com a calva luzidia e um lápis seguro à orelha, a nos contar proezas acontecidas em Vale de Cambra, sua bela cidade no distrito de Aveiro, Portugal, aonde um dia tive a oportunidade de comer uma ‘uma vitela da Gralheira’, regada a um bom tinto da região; punha-se, também, ele, o António, atento às conversas vindas das mesas onde se assentavam os jornalistas e poetas José Chagas, Nauro Machado, Agnor Lincoln da Costa e Amaral Raposo, enquanto na calçada passa e repassa, de quando em vez, o advogado Clineu Coelho de Sousa e o irrequieto Arimathéa Ataíde, ambos móveis e utensílios da bem querença da Cidade. Aquele canto, como se diz em São Luís, da Rua de Nazaré e Odylo, com a da Rua da Palma, é uma ‘via crucies’ de jornalistas, radialistas, políticos e mais uma gama de gente que por ali trafega em seus afazeres diários, ou simplesmente para ouvirem as reivindicações sociais do escritor e poeta Nascimento Moraes Filho [José] que, em um dos ângulos da praça, estabeleceu seu ‘Beco do Protesto’ de onde braveja com sua voz altitonante, contra os absurdos praticados ao meio ambiente por uma multinacional, instalada às margens do Bacanga…E Zé Moraes, como era carinhosamente chamado, tinha cacife para fazê-lo, vez que é o autor imortal de ‘O Clamor da Hora Presente’, desabrolhado no país inteiro, com endosso da grande crítica brasileira, e do discernimento estético de Otto Maria Carpeaux, como um grito em defesa dos menos aquinhoados na vida. E as pessoas ali se multiplicavam para ouvirem os protestos e trocarem ideias com o poeta.
De repente, a atravessar a pracinha Benedito Leite, lá vai o Dr. Antônio José Muniz, requintadamente vestido, em direção à Avenida Pedro II, sobre o qual não deixarei a primazia para o querido e saudoso Bernardo Coelho de Almeida de falar, somente ele, em seu livro ‘Éramos Felizes e não Sabíamos,’ das qualidades funcionais dessa queridíssima figura que é, sem dúvida nenhuma, o nosso amigo e companheiro Muniz, como é conhecido pelos íntimos e pela torcida do Flamengo e do Moto Clube, times de seu coração.
Sem muitas aprazas, confesso que pelas minhas andanças funcionais em gabinetes e assessorias que se fizeram pedaços de minha história, onde tive a oportunidade de cruzar com muita gente boa de serviço e competência funcional, o que de alguma forma me proporciona condições de aferição, apraz-me dizer aqui, de corpo presente, sem receio de erro, que ninguém encontrei “melhor de serviço e de tomada de decisão” do que meu amigo Antônio José Muniz, com quem tive a oportunidade e a alegria de trabalhar no gabinete de uma Secretaria de Estado, em São Luís, quando à disposição, a tais préstimos, mesmo por pouquíssimo tempo, foi o suficiente para endossar evm gênero, número e grau o que diz textualmente Bernardo Coelho de Almeida, “ser Muniz o funcionário público de maior competência que já vira por toda sua vida”. E eu também!
Aproveito o gancho de ‘Éramos Felizes e não Sabíamos’, onde Bernardo Almeida, com sua elegância ao escrever, aponta um homem que passa pela rua trajando terno de linho branco e levando à destra, uma pequena malinha… Era o médico pediatra João Mohana, recém-chegado da Universidade da Bahia, sempre a pé, que iria com certeza atender alguma criança, sua paciente… Eu, por minha vez, o acompanho e o vejo [ou o via], sem mais o terno branco e a pequena malinha de médico, mas agora [algum tempo depois], chegado do Seminário Maior de Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre, a trajar calças pretas e blusa cáqui de mangas compridas, portando uma pasta, talvez com originais de livros, anotações de pesquisas e tarefas eclesiásticas, já que é [ou foi] Vigário Geral da Igreja da Sé. Tenho muitas saudades de João Mohana, um intelectual de finíssima estirpe, autor imortal de ‘Maria tempestade’ e de ‘Abrahão e Sara’, além de ser um dedicado levita de Deus! Aquel’outro que ali vai, é o Engenheiro e Deputado Federal Domingos Freitas Diniz, o ‘Dominguinhos’ para os mais íntimos, querido amigo, oposicionista ferrenho e um grande parlamentar, que por querelas políticas, como sempre, encontra-se às voltas com uma confusão com Sarney… Parece que o TRE fez despachar, por estas tardes, um ’sursis’ a seu favor… E os curiosos na Praça João Lisboa o rodeiam à cata de novidades…

Enquanto isso, uma pequena aglomeração se forma na porta do ‘Bar do Castro’, era o jornalista Erasmo Dias engalfinhado na porrada com o artista plástico Antônio Almeida, sob às vistas gozadoras de populares; e o amontoado de curiosos crescia com a saída da vesperal, do ‘Teatro Artur Azevedo’, arrendado pelo ‘Zecão’ Dualibe para funcionar também como cinema; as senhoras e senhoritas que deparavam com aquela cena se assustavam, a se apressarem horrorizadas, com as mãos nos rostos; enquanto Erasmo, apenas em cuecas, porque as calças lh’as tinham caído no desespero da briga, apelava, aos gritos, para dentro do bar, onde estava no Caixa, o temperamental ‘Manelão’, filho do senhor Leôncio Castro, cônsul de Espanha no Maranhão e proprietário, esta bela locução gramatical: “Maneco, vem cá depressa suspender minhas calças que eu detesto o ridículo”, apelo pelo qual o nosso amigo e tolerante ‘Manelão’ respondia na mesma velocidade ritmada:
“Erasmo, vai pra puta que te pariu!”
E a cena de pugilato só terminou quando surgiu na esquina da Faculdade de Direito, o porte elegante e respeitável do Dr. Djalma Marques, cuja figura, mesmo de longe, fez tremer os arruaceiros, agora, a dependerem da ajuda dos amigos ‘Carroca’, ‘Luis 40’ e Zé Viana, que jogavam sinuca no ‘bar do Henrique Gago’, ali apegado, que correram para desapartá-los, enquanto o jornalista e poeta Salomão Rovedo, como um procurador romano, gritava a plenos pulmões: “Ao vencedor as batatas!”
Vivia-se intensamente! o Éramos felizes e… Não sei se sabíamos! Tínhamos, talvez, consciência de que éramos… E como vivíamos… Entretanto, Sérgio Brito afirmava que “tínhamos convicção de que éramos…” Não havia enganos entre os céus das três praças políticas, literárias e boêmias, a João Lisboa, o Largo do Carmo e a Benedito Leite, trinas na forma, no gesto e na grandeza.
Hoje nada mais há, porque existe uma outra cidade depois da ponte, bem ali onde o Rio Anil deságua no boqueirão de São Marcos; e a cidade velha, chamada de ‘Centro Histórico’, continua, agora revitalizada, mas sozinha, com as ‘Mangudas dos Remédios’, com as visagens da ‘Carruagem de Donana Jansen’ e com os sortilégios da velha Serpente que rodeia a Ilha.
Por favor, não perguntem por ninguém, porque, â salva de poucos, morreram todos, dizem os cadeados nas cancelas!”
———————-
*Fernando Braga, in ‘Conversas vadias’ [Toda prosa], antologia de textos do autor. Ilustrações: Largo do Carmo e praças João Lisboa e Benedito Leite.
Homenagem
Tia Dirce, Oscar e o silêncio
Published
1 semana agoon
18 de abril de 2026By
Sérgio Muniz
É estranho, para mim, iniciar um texto pelo final do título. Contudo, não vejo como ser de outra forma.
Silêncio.
Para alguns, um dia qualquer. Para muitos, um inesquecível momento de se despedir de quem vai fazer muita falta. Em universos distintos e certamente desproporcionais, o Brasil e o Maranhão perderam hoje duas pessoas de significativo valor: retornaram para os braços do Pai, a nível de Maranhão, Dirce Fecury Zenni. A nível de Brasil, Oscar Schmidt. De comum entre ambos, um pequeno elo chamado Ricardo Zenni.
Eu era menino quando aceitei um inesperado convite do falecido Professor de basquete do Colégio Dom Bosco, o inesquecível César, para treinar aquele esporte que, na minha vida, representava apenas uma distração até o início das aulas de matemática do Professor Nascimento Morais, ministradas no começo da noite na casa do meu amigo Fábio Nahuz, onde hoje fica a sede da Unimed no Canto da Fabril. Talvez por ser um pouco maior que a maioria dos meninos da época, ele achou que eu teria possibilidade de me destacar (ledo engano: no ano seguinte passei a me dedicar ao esporte da minha vida que foi o futebol de salão). Na época, eu e miudinho formamos uma razoável dupla de pivôs, pelo menos para nossa realidade infantil. Nossa esperança de ir bem no esporte durou até batermos de frente, nos jogos infantis maranhenses, com o time do Colégio Batista que tinha Alan Neto e Arnaldo bicudo na armação e Cosme (já falecido) de Pivô. Eu e miudinho pulávamos e não conseguíamos chegar no antebraço dele. Hehehe. O cara era enorme para nossa realidade.
Para quem não sabe, miudinho era e é meu amigo/irmão Clóvis Fecury, filho de uma lenda do nosso desporto amador justamente naquela modalidade, o ex-Prefeito de São Luís; Idealizador e fundador da Universidade CEUMA, Mauro de Alencar Fecury. Nos finais de semana, costumávamos ir para a casa de Clóvis no bairro do Olho D’água, para brincar e jogar basquete, momentos nos quais tínhamos a oportunidade de ver Dr. Mauro e Ricardo Zenni jogarem. Como diria Bruno Henrique do Flamengo: otopatamar. Ficávamos nós, eu, Clóvis, Fábio Beiço, Paulinho, Catatau, eventualmente Maurício Itapary, Josmar e mais alguns outros admirando e aprendendo como praticar aquele esporte com um mínimo de qualidade.
Ricardo Zenni, além de nos massacrar juntamente com Dr. Mauro, ainda desfilava seus jumps (jump shot é um fundamento do basquete em que o atleta arremessa a bola no ponto mais alto do seu salto de ataque) depois das partidas. O cara não errava um arremesso, principalmente de três pontos. Foi nessa época que soube que ele teria jogado com o grande Oscar da seleção brasileira de basquete. Ricardo Zenni é filho de Tia Dirce, irmã de Dr. Mauro. Ela é, portanto, tia de Clóvis.
Tia Dirce foi uma figura exponencial. Dona de uma alegria infinita e um cativante sorriso. Se fazia presente todos os dias em sua lanchonete no Ceuma, normalmente acompanhada por sua filha Virna, onde com todo carinho e atenção, recebia os alunos ávidos por saciar sua fome com os quitutes deliciosos que ela disponibilizava. Sempre foi muito querida por todos. Para nós, que pudemos estar com ela fora do ambiente de trabalho, era Tia Dirce, irmã de tio Miguel e de Dr. Mauro. Uma doce pessoa de sorriso largo e olhar acolhedor. Um exemplo de mãe e mulher empreendedora.
Quanto a Oscar, este não necessitava de apresentação por onde quer que andasse. Ele fazia parte da geração mais vencedora do nosso basquete dos anos 80 aos anos 2000. Em que pese eu achasse que Marcel tinha mais plasticidade no arremesso (Oscar era mais desengonçado), ambos formaram com Marquinhos, Gerson, Pipoca, Guerrinha e Carioquinha, dentre outros, a mais vitoriosa geração de jogadores de basquete brasileiros que vi jogar. Graças a Ricardo Zenni e Dr. Mauro, eu não perdia um jogo e torcia muito pela nossa seleção. Se não ganhamos olimpíadas e Oscar sempre se ressentiu de ter errado o último arremesso no jogo contra a União Soviética (teríamos vencido o jogo e o Brasil poderia ter sido o campeão olímpico, vez que essa honra coube aos soviéticos), ganhamos o jogo mais emblemático do século XX, quando o Brasil venceu os EUA no pan-americano de Indianápolis, dentro, portanto, dos Estados Unidos, naquela que foi a primeira derrota deles em finais. Lembro como se fosse hoje da narração de Luciano do Vale, de Marcel sambando meio sem jeito após mais um ponto e de Oscar chorrando no final da partida. Inesquecível.

Oscar foi o maior jogador de basquete do Brasil. É o maior pontuador profissional com mais de 49 mil pontos e o maior pontuador em olimpíadas com mais de mil pontos, tendo disputado cinco olimpíadas. Integra o hall da fama do basquete sem nunca ter jogado na NBA, em que pese tenha sido drafitado (escolhido). Optou por não se profissionalizar lá vez que isso o impossibilitaria de jogar pela seleção brasileira. Foi um patriota que nunca se arrependeu da escolha que fez. Para mim, fã incondicional, ele está no mesmo patamar, no Brasil e para o mundo, de Pelé, no futebol, Airton Senna no automobilismo, Guga no Tênis e César Cielo na Natação, apenas para citar desportista homens.
Oscar lutou contra um câncer de cérebro desde 2011 e venceu. Ele morreu de uma parada cardiorespiratória após se sentir mal. Deixa um legado de dedicação ao treinamento insuperável. Dizia que teve quem jogasse mais que ele, mas não que treinasse mais.
Para mim, hoje foi um dia de silêncio e dor. Silenciei quando soube da partida deles. Doeu saber que perdemos um ícone do esporte e uma pessoa espetacular como tia Dirce. O elo, Ricardo, sofreu duas vezes.
A família Ceuma diz adeus. Nós, pobres mortais, até breve.
À família Fecury Zenni, recebam meus sentimentos e um fraternal abraço neste momento de dor. Força e fé.
Aos brasileiros, digo que tivemos a sorte de ter, entre nós, um potiguar que levou o basquete do Brasil para o mundo e que está, para sempre, imortalizado no Hall da fama do basquete mundial.
Que haja um minuto de silêncio, seguido por um caloroso aplauso, em homenagem àqueles que partiram deixando uma marca indelével de suas realizações.
Ninho da serpente foi uma grande telenovela brasileira, produzida e exibida pela Rede Bandeirantes no ano de 1982 e que tinha no elenco grandes nomes da nossa teledramaturgia como Cleide Yacones, Eliane Giardini, Laura Cardoso, Beatriz Segall, Kito Junqueira, Juca de Oliveira, Othon Bastos, dentre outros.
A novela trazia como enredo a morte do empresário Cândido Penteado e uma verdadeira guerra pela sua enorme herança, a qual tem como atores principais a irmã do falecido, Guilhermina Penteado, personagem de Cleide Yacones, seus filhos e netos, e Mateus, filho do falecido, o qual só encontra apoio em sua tia Maria Clara e em Lídia (Eliane Giardini), neta de Guilhermina e seu grande amor. A trama conta ainda com a paixão de Mariana por Mateus (ela é sua obcecada prima e a personagem é vivida por Julia Lemmertz – um colosso de mulher quando a conheci no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, quando alcançava meus doze anos) e de Karl (Paulo César Grande) por Marinalda (Mayara Magri), estes em início de carreira. Lembro que Kito Junqueira e Eliane Giardini estiveram em nossa casa no bairro do Ipase, em São Luís do Maranhão, levados por Joaquim Haickel, então assessor da Casa Civil do Governo do Estado, os quais buscavam um avião que os levasse para conhecer os lençóis maranhenses, isso ainda em 1982, no final do Governo de João Castelo.
Como o próprio nome da novela aponta, ninho da serpente se refere à mansão aonde morava a megera Guilhermina e onde vai morar Mateus, o herdeiro real da fortuna (a casa existe realmente no bairro Jardins, em São Paulo e conserva sua majestosa escadaria tão destacada nas cenas da novela).
Essa obra, registre-se, não se destacou apenas pela envolvente trama que a levou a ameaçar a hegemonia da Globo, mas também pela sua excepcional trilha sonora, notadamente a internacional, que contou com músicas da envergadura de Perhapes Love, interpretada Por John Denver e Plácido Domingo e Memory, interpretada por Barbra Streisand.
Vocês certamente devem estar se perguntando a razão destas lembranças em novembro de 2025. Respondo: minha mãe amava essa novela e eu aprendi, com ela, a ter o mesmo sentimento.
Perhaps Love, espetacularmente interpretada na novela pelo seu autor, John Denver, e pelo fantástico tenor argentino Plácido Domingo (disponibilizo o link, mas este pode ser retirado pelo YouTube, porém pode ser acessado digitando o nome da música e pedindo para ser a traduzida), traz uma mensagem linda de amor e saudade. Segundo a inteligência artificial, “A letra de “Perhaps Love” fala sobre as várias facetas do amor, descrevendo-o como um “abrigo” e um “lugar de descanso” em tempos difíceis, mas também como um “oceano repleto de conflitos e dor”. A canção reflete sobre os dilemas do amor, com algumas pessoas dizendo que é preciso “segurar firme” e outras que é preciso “deixar ir”. A memória do amor, no entanto, é descrita como algo que traz conforto e persistência”. Senão vejamos:
“Talvez o amor seja como um local de descanso,um abrigo da tempestade
Ele existe para te oferecer conforto, Ele está lá para te manter aquecido
E naqueles tempos de dificuldade quando você está sozinho,
A lembrança do amor vai te trazer para casa
Talvez o amor seja como uma janela,Talvez uma porta aberta,
Ele te convida para chegar mais perto, Ele quer te mostrar mais
E mesmo se você perder a si mesmo e não souber o que fazer,
A lembrança do amor vai te acompanhar
O amor para alguns é como uma nuvem, Para alguns tão forte como o aço
Para alguns um modo de vida, para alguns um modo de sentir.
E alguns dizem que o amor está persistindo E alguns dizem que está desistindo
E alguns dizem que o amor é tudo E alguns dizem que não sabem…
Talvez o amor seja como o oceano, Repleto de conflito, repleto de dor
Como uma chama quando está frio lá fora, Um trovão quando chove.
Se eu viver eternamente E todos os meus sonhos tornarem-se realidade,
Minhas lembranças do amor serão sobre você…
E alguns dizem que o amor está persistindo E alguns dizem que está desistindo
E alguns dizem que o amor é tudo E alguns dizem que não sabem
Talvez o amor seja como o oceano, Repleto de conflito, repleto de dor
Como uma chama quando está frio lá fora, Um trovão quando chove.
Se eu viver eternamente E todos os meus sonhos tornarem-se realidade,
Minhas lembranças do amor serão sobre você…”
https://youtu.be/D9gf6cUuB54?si=3H5WWfRvdPenvCaD
Por sua vez, Memory, uma das mais premiadas interpretações de Barbra Streisand, nos remete para um outro tipo de sentimento. Profundo, é verdade, mas de contexto diferenciado. Diz a letra:
Meia-noite
Nenhum som da calçada
A Lua perdeu a memória?
Ela está sorrindo sozinha
Na luz do lâmpada
As folhas secas
Juntam-se aos meus pés
E o vento começa a gemer
Lembrança
Totalmente sozinha ao luar
Eu posso sonhar com os velhos dias
Em que a vida era linda
Eu lembro da época em que
Eu sabia o que era a felicidade
Deixe a lembrança viver novamente
Cada lâmpada da rua
Parece palpitar
Um aviso fatalista
Alguém murmura
E a lâmpada da rua crepita
E logo será manhã
Luz do dia
Eu devo esperar pelo nascer do Sol
Eu devo pensar sobre uma nova vida
E eu não devo ceder
Quando a aurora chegar
Esta noite será uma lembrança também
E um novo dia começará
Finais desgastados de dias esfumaçados
O cheiro frio e passado da manhã
Uma lâmpada da rua se apaga
Outra noite terminou
Mais um dia está amanhecendo
Toque-me
É tão fácil me abandonar
Totalmente sozinha com a lembrança
Dos meus dias ao Sol
Se você me tocar
Você compreenderá o que é a felicidade
Olhe, um novo dia começou!”
https://youtu.be/sLxSFi5Fq0o?si=MnvvO5pN5qk6nHlq
Depois de um dia desgastante de trabalho, voltei pra casa vendo no céu a lua cheia de outono. Ela já não tem mais o mesmo brilho para mim e os velhos dias em que a vida era linda já não existem mais.
Em seu lugar ficou apenas uma eloquente saudade.
O dia não tarda a amanhecer e eu devo ceder. Preciso acreditar em um novo amanhã. Preciso viver, ainda que a solidão tente forçar ao contrário, diz a música com pertinência.
Dos meus cinquenta e cinco anos convivi cinquenta contigo. Não tenho como acostumar com tua ausência em cinco anos. Tua partida dói a cada minuto, um interminável lapso temporal que se renova.
Volto para perhaps Love.
“Talvez o amor seja como um local de descanso,um abrigo da tempestade
Ele existe para te oferecer conforto, Ele está lá para te manter aquecido
E naqueles tempos de dificuldade quando você está sozinho,
A lembrança do amor vai te trazer para casa
Talvez o amor seja como uma janela,Talvez uma porta aberta,
Ele te convida para chegar mais perto, Ele quer te mostrar mais
E mesmo se você perder a si mesmo e não souber o que fazer,
A lembrança do amor vai te acompanhar”.
Boa parte das lembranças que tenho de um amor verdadeiro me transportam para as nossas casas. Tua presença firme nos fazia acreditar que nosso lar fora edificado sobre a rocha. Foste a mulher virtuosa da Bíblia que edificou sua casa, não a mulher que rasga os ensinamentos e os juramentos assumidos perante Deus. Amaste nosso pai e teus filhos mais até do que amaste a ti mesma. Compreendeste o ensinamento bíblico que diz que o homem e a mulher deixarão a casa de seus pais, formarão uma família e serão uma só carne. Tudo o que somos devemos a vocês, mas muito a ti que, mesmo nas ausências de papai, causadas por suas inúmeras atribuições, soubeste nos conduzir no bom caminho.
Fiz questão de registrar tudo isso entre os dias quatro e cinco de novembro. Quatro por ser o teu aniversário, mas também o início do tempo mais longo da minha vida. Vivi, juntamente com Márcia, minuto a minuto da tua luta, da tua dor e tua partida, já no dia cinco. Em quatro de novembro de 2025 farias oitenta e três lindos anos. Em cinco de novembro faz cinco anos e cinco meses que foste ao encontro do pai.
É dificílimo viver sem tua presença física, mas estás em cada célula de cada um de nós.
Não viveste no ninho da serpente.
Viverás para sempre na nossa memória, mas a cada dia em que eu olhar uma lua cheia de outono, saberei que o meu futuro é de dor, saudade e lágrimas, caídas dos meus olhos em forma de gotas, como as chuvas do inverno.
Te amarei para sempre minha mãe. Até quando o sol não mais brilhar para mim, viverás eternamente no meu coração.
Em 2017 tive a oportunidade de escrever o texto “Ao Sagrado Coração de Jesus “, o qual viria a atualizar em 2019. Nele narro como se deu o surgimento do festejo de mesmo nome que é realizado em Carema todo mês de julho. Dizia eu àquela época:
“Dos oito filhos que tiveram (José Bonifácio e Hormígida), quatro já haviam nascido com grande dificuldade e muitas dores. Eram eles Sebastiana (Cecé), José Carlos, Theresinha de Jesus e Benedita (Bindoca). Após engravidar do quinto filho em 1937, D. Hormígida se entregou de vez à fé no Sagrado Coração de Jesus e fez a promessa de que se tivesse um parto normal e sem grandes dores, todos os anos lhe renderia homenagem mandando celebrar uma missa na capela que haveria de mandar construir e fariam uma grande Festa. Suas preces foram atendidas. O bebê, que recebeu o nome de José Ribamar, nasceu em 27 de julho de 1938 de um parto tranquilo, assim como todos os outros que vieram depois: José Bonifácio Filho (Zequinha Buranga), Raimunda (Dica) e Antonio José (Tote). Começava assim uma tradição que em 2019 ( quando atualizo este texto escrito em 2017) alcança 80 (oitenta anos) anos. Sempre no último sábado do mês de julho o Povoado Carema, edificado às margens da Ferrovia São Luís-Teresina, no município maranhense de Santa Rita, recebe o maior evento religioso da região, o festejo em homenagem ao Sagrado Coração de Jesus. Sim, neste ano a criança cujo nascimento ensejou a promessa, Ribamar Muniz, faz oitenta e um anos e o festejo oitenta, recaindo o último sábado de julho desta feita na data do seu aniversário.”
Ribamar cresceu. Tinha uma deficiência visual que lhe fez usar óculos desde muito cedo, o que acabou por lhe render o apelido que o acompanhou por toda a vida: Ribamar quatro olho.

Sempre muito comunicativo, mas de jeitinho manso, conquistava a todos com seu sorriso largo. Tinha muitos amigos e em decorrência dessas amizades, muitos compadres. Sempre me impressionava a quantidade de pessoas que se aproximavam dele e o cumprimentavam chamando-o de compadre.

Me acostumei a vê-lo andando de um lado para outro, de bicicleta ou, depois, de motocicleta, meio de transporte que ele tanto apreciava. Visionário, montou um comércio no bairro céu azul, entre Carema e a Sede de Santa Rita, consciente de que ali prosperaria, haja vista que seria natural o crescimento da cidade ao longo da Avenida General Rivas. Inúmeras vezes o via sentado no balcão de madeira aguardando seus clientes e amigos.
Sua enorme popularidade lhe rendeu vários mandatos de Vereador, tendo se tornado o decano da Câmara Municipal.
Neste ano de 2025, ele completaria 87 (oitenta e sete anos) e a data recairia no último final de semana de julho, por ocasião do festejo do Sagrado Coração de Jesus, evento criado em homenagem ao Pai pelo nascimento de um filho chamado José.
Na data de ontem, 18 de abril de 2025, ele descansou. Coincidentemente no mesmo dia em que Jesus Cristo entregou o seu espírito ao criador pela remissão dos pecados da humanidade.
Abençoada foi vovó Hormígida com teu nascimento. Abençoado foste tu, Ribamar, no momento do teu descanso. Foste grande durante a vida, muito maior na hora da morte. Agora estás do outro lado do caminho, de onde ajudarás a encaminhar os teus.
Siga a luz, meu tio. Santa Rita jamais esquecerá José Ribamar Muniz, o Ribamar quatro olho, o filho da promessa.
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